Carta a uma pessoa sã

Nós sabemos que somos loucos.

Tão claro como a luz da noite e o riso triste de uma criança.

Nascemos amaldiçoados com o gene da loucura que toma nossos neurônios e consome suas sinapses.

Falamos coisas normais invertidas, pensamos pelo final.

Sabemos que não entende, sabemos que dizemos coisas que envergonham você.

Cada vez mais você nos deixa, isso dói.

Mas temos algo em comum: você não sabe lidar com o diferente e nem nós. Não sabemos lidar com pessoas sãs e você não sabe lidar com pessoas loucas.

Não aguenta nossa realidade invertida e constante necessidade de atenção, amplificado com falta de tato as entrelinhas complicadas do trato social. Nós, loucos, não aguentamos seu controle e falsos risos onde não há graça.

É difícil encontrar um ponto em comum nesse mar de instabilidade.

Nossa mente fraturada sofre nas mãos de remédios tarja preta. A concentração se esvai, nos perdoe se não ouvimos.

Mesmo assim, você se vai. Sempre.

Você diz que fica mas assim que nosso monstro sai da caixa e demonstra toda a sua maluquice, tu és a primeira a correr.

Não te culpo, nós nos culpamos.

O bicho e eu, que deixamos um e outro crescer demais.

Ficamos aqui, a deriva nesse céu.

Obrigado por ter passado ao menos.

Estamos em constante adestramento agora.

Não há herói sem sombra, certo?

Toda história tem vilão e mocinho.

Nós somos só os dois.

Até mais você que vai e olá você que entra.

A ambos um perdão pela bagunça.

Nós estamos sempre brigando.

Eu sou a pessoa do outro lado do espelho.

Eu sou a pessoa do outro lado do espelho.