Eu vivo à beira do abismo.

Não lembro quando ele apareceu, apenas sei que uma parte de mim participou ativamente de sua formação. Vivemos numa batalha silenciosa, em que ele tenta me engolir e eu tento fechá-lo. Existem tempos em que ele parece raso como uma poça d’água e me pergunto se tudo não passa de uma brincadeira da minha cabeça para deixar as coisas maiores que são. Como uma ilusão de ótica naqueles quadros de escadas. Mas existem horas que ele parece grande e tão profundo que jamais verei seu fim. Uma supernova esperando para explodir e eu estou bem na beirada vendo tudo isso. É solitário aqui. As pessoas não entendem muito bem o conceito de uma casa na beira de um buraco. Nem eu entendo, para falar a verdade. Consigo ver o medo nelas a cada vez que faço a dança de ir um pouco mais para borda e voltar. Me desculpem, não posso sair daqui, nunca fui para nenhum outro lugar e…

O abismo vive à beira de mim.

Eu sou a pessoa do outro lado do espelho.

Eu sou a pessoa do outro lado do espelho.