A. C.

Jul 7, 2018

1 min read

Museu.

Você é uma obra de arte.

Cada traço milimetricamente calculado.

Cada cílio perfeitamente colocado.

Cada pincelada delicadamente feita.

Saiu da folha e ganhou vida própria.

Mas não pode ir para aonde quer ir.

No museu tu és pendurada.

Alardeada como um troféu, sempre impecável, observe a iluminação e os olhares, mostre seus melhores ângulos, não escolha a moldura errada.

O tempo passa, a pintura lasca, as aquarelas desbotam.

Os olhares passam a ser escassos e cruéis.

Ainda presa aquela parede, ainda refém dos críticos de arte.

Em frente a sua exposição existe uma janela, o verde das árvores contrasta com o cinza das edificações. Uma mãe beija sua criança, amantes se abraçam, o cachorro corre atrás de sua família.

Mas você não, obras de arte são intocáveis, lembra?

Aonde vai?

Volte aqui, os óleos não aguentam a luz do sol.

Não vire aí, a tela irá desfiar se tocar nos arbustos.

Evite a saída, é tão mais seguro aqui dentro…

O público te encara, chocado. O que fez?

Palmas.

O curador vem te dar um abraço, ainda não entende.

“De res a civis” ele diz.

A pintura havia virado artista e seus medos haviam sido expostos.

Parabéns.

Eu sou a pessoa do outro lado do espelho.

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